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Não há empresa mais difícil de conduzir, mais incerta quanto ao êxito e mais perigosa, do que a de introduzir novas instituições. Aquele que nisso se empenha tem por inimigos todos quantos lucravam com as instituições antigas e só encontra tíbios defensores naqueles aos quais as novas aproveitariam” –Machiavel

Dia desses, em uma troca de idéias com um amigo, discutíamos a validade ou não de exercer críticas à igreja evangélica brasileira, pela sua ineficiência em cumprir o “Ide” e sua especialização em manter entre as quatro paredes um rebanho desnutrido espiritualmente.

Ouvia atentamente seus argumentos de que ao criticar líderes que hoje estão “famosos” por polêmicas, há uma injustiça, afinal já levaram o evangelho a milhares de pessoas, e por serem também pessoas, são imperfeitos. Há o caso mais emblemático do casal Hernandes, líder da Igreja Renascer, citado por ele como exemplo de injustiça. Lembrei de quando conheci a Renascer, nos anos 90, época em que se preocupavam em pregar que “Jesus salva, cura e liberta”, e também em transmitir a idéia de que “ser crente não é ser quadrado”. Bons tempos. Quando a igreja passou a viver o Antigo Testamento, criar hierarquias e nomenclaturas, ano disso e daquilo, benção apostólica e afins, começou uma decadência sem fim. Processos e mais processos na Justiça por suspeita de desvio e lavagem de dinheiro, ações de despejo por não pagamento de aluguel, líderes saindo para estruturar suas próprias igrejas (Bola de Neve Church é um caso), Sônia e Estevam na cadeia por tentar fraudar o sistema tributário norte-americano, entre outros. Até os então denominados “Bispos-Primazes” da Banda Resgate viram que o navio afundaria e abandonaram o barco.

Mas não é pra falar da Renascer que me pus a escrever. Vivemos num país em que até pouco tempo atrás o número de pessoas analfabetas era altíssimo. Dados de 2003 do IBGE apontavam que 16 milhões de pessoas no Brasil eram incapazes de escrever um simples bilhete, e levando em conta os analfabetos funcionais, o número sobe para 33 milhões de pessoas. Dados de 2010 sobre o ensino superior apontam que existem 5,3 milhões de alunos matriculados em universidades. Tradução: temos uma população altamente incapaz intelectualmente, e fácil de manipular. Não à toa, nossos políticos fazem isso de forma muito eficiente.

Não é segredo a ninguém que o grosso dos evangélicos no Brasil é formado pelas classes C, D e E. Há sim integrantes das classes A e B, mas são absoluta minoria. A pulverização de denominações e as subdivisões dos evangélicos entre tradicionais, pentecostais, neo-pentecostais e apostólicos facilitou um fenômeno lamentável. O evangelho deixou de ser uma filosofia simples baseada no conceito da Graça e passou a ser uma teoria variável, com diversas interpretações possíveis. Levando em consideração que o movimento protestante já era uma maneira diferente de olhar para o evangelho, o resultado não poderia ser menos confuso.

Hoje, há igrejas e segmentações para todos os gostos e/ou necessidades.

A Igreja Universal (pioneira na Teologia da Prosperidade) teve vídeos sigilosos de treinamentos para pastores divulgados no site do jornal Folha de S. Paulo tempos atrás. Nesses vídeos, os “pastores” eram instruídos sobre técnicas de arrecadação de ofertas especiais, sobre como enfatizar que a contribuição era necessária para alcançar determinada benção, etc.

Igrejas (inúmeras, não vale citar nenhuma, para não ser injusto) que se especializaram no segmento “adoração” e que arrastam centenas, milhares e por que não, milhões em alguns eventos, focam na “adoração extravagante”, estimulando seus fieis a extravasarem suas emoções, criando assim, dependentes emocionais que nem se dão conta disso. Já dizia Karl Marx, nos idos do século XIX, que “a religião é o ópio do povo”. Nem líderes, nem seguidores se dão conta de que desempenham muito bem o papel descrito por Marx.

Quando uma instituição religiosa, autodenominada cristã, se põe a pregar uma variação do evangelho descrito na Bíblia, se põe a fazer um desserviço a quem a procure. Em nome de Deus, os tão criticados católicos já fizeram inúmeras barbáries no decorrer da história. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que embora diferentes, os danos causados pelas igrejas “evangélicas” é tão extenso quanto. Me refiro à quantidade de pessoas que tomaram contato com um evangelho distorcido ao longo dos anos e que, cada um à sua maneira, sofreram danos colaterais.

Paul Tournier, que era médico, em seu livro Culpa e Graça, faz uma citação intrigante a respeito do dilema da Graça: “É significativo o que um dos meus pacientes protestantes tenha dito: O protestantismo me parece com um enorme esforço para se ganhar a graça pela boa conduta, enquanto que o catolicismo distribui esta mesma graça a todo aquele que a procura com um padre’”. O curioso dessa bela obra de Tournier é que quando foi publicada no Brasil, teve trechos censurados, inclusive esse que citei acima. Nem me arrisco a perguntar o motivo…

 Não estou fazendo e nem quero fazer defesa do catolicismo, não tenho credenciais para isso. A questão que proponho reflexão é exatamente a sonegação da graça, voluntária ou não, por parte dos líderes evangélicos em geral. Condicionam diversas coisas, dentre elas a comunhão, à presença constante aos cultos, contribuições financeiras, adequação a hábitos impostos sem embasamento bíblico, etc.

A citação que fiz de Machiavel na introdução desta reflexão serve para ilustrar o tamanho da dificuldade em alcançar alguma mudança nesse cenário. Escolhi Machiavel por ser um pensador que teve boa parte de sua filosofia distorcida e pintada como perversa, e por sinal, a pintura perversa serve exatamente como figura icônica a essa igreja doente: praticam um evangelho em que “os fins – pessoais – justificam os meios”.

Em nosso contexto social, a igreja deveria cumprir uma função mais refinada do papel desempenhado pela Igreja Primitiva: assistir os necessitados, e ser fonte de inspiração e conhecimento para os incultos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” – João 8:32

O que pensar de líderes que segmentam suas igrejas afim de atingir certa parcela da população, e abandonam a simplicidade do evangelho? Como se calar perante o abuso intelectual a que submetem seus fieis, ou ainda a exploração que aliena e certas vezes destrói famílias, afetiva ou finaceiramente, quando não de ambas as formas? O que pensar de igrejas que como instituições permitem o “canibalismo” entre seus membros, fazendo surgir a cada esquina novas “portas”, sem estrutura, que terão à frente pessoas incapazes de gerir uma comunidade, ou de lidar com temas e questões delicadas? Por quê não criticar essa irresponsabilidade, que arrebanha milhares e perde outros tantos, de tempos em tempos, transformando o evangelho numa religião de ocasião?

Não. Não me calarei, não me intimidarei e não darei por encerrada minha tarefa de expor essas mazelas, desmascarar as conveniências de alguns, inconvenientes ao bem geral. Não sou o único, e sei que hoje já não são poucos os insurgentes contra essas instituições falidas que pregam uma distorção pobre dos belos ensinamentos de Cristo. E por quê faço isso? Por amor a Deus, ao próximo e por uma necessidade quase que fisiológica de cumprir Marcos 16:15, ordem expressa: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.

A tarefa é árdua, mas mudaremos esse quadro.