Arquivo da categoria ‘Onde a Igreja vai parar?’

A partir de Segunda-Feira, 19/09, passarei a escrever para o site Gospel+, maior portal sobre o universo gospel do mundo, com mais de 170.000 pageviews diários.

A proposta chegou em um momento importante, e lá, não expressarei opinião pessoal, mas seguirei uma pauta pré-estabelecida pela empresa. Para os que não sabem, sou redator publicitário, e lá, serei um quase jornalista. Quase por não ser formado em jornalismo, e porque essa não será minha fonte principal de sustento. Continuo publicitário!

Assumo esse desafio com olhar profissional, montando textos com o único propósito de informar. Minhas opiniões continuarão sendo expressas através desse blog, e eventualmente, em algum artigo a ser divulgado em veículos que façam um convite.

O estilo de escrita é outro ponto a ser observado: tenho o meu estilo pessoal, mas no Gospel+ seguirei a linha editorial do portal, assim como todos os profissionais nas grandes empresas de comunicação. O público evangélico brasileiro é formado essencialmente por pessoas das classes C e D, e isso influi diretamente na construção e argumentação dos textos.

Meu muito obrigado a cada um que acompanha meu blog. Suas observações, críticas e elogios foram muito importantes para que eu me aperfeçoasse como homem, cristão e escritor. Esse blog não acaba aqui, pelo contrário, se torna ainda mais importante, quase um refúgio. Um grande abraço a todos!

Não há empresa mais difícil de conduzir, mais incerta quanto ao êxito e mais perigosa, do que a de introduzir novas instituições. Aquele que nisso se empenha tem por inimigos todos quantos lucravam com as instituições antigas e só encontra tíbios defensores naqueles aos quais as novas aproveitariam” –Machiavel

Dia desses, em uma troca de idéias com um amigo, discutíamos a validade ou não de exercer críticas à igreja evangélica brasileira, pela sua ineficiência em cumprir o “Ide” e sua especialização em manter entre as quatro paredes um rebanho desnutrido espiritualmente.

Ouvia atentamente seus argumentos de que ao criticar líderes que hoje estão “famosos” por polêmicas, há uma injustiça, afinal já levaram o evangelho a milhares de pessoas, e por serem também pessoas, são imperfeitos. Há o caso mais emblemático do casal Hernandes, líder da Igreja Renascer, citado por ele como exemplo de injustiça. Lembrei de quando conheci a Renascer, nos anos 90, época em que se preocupavam em pregar que “Jesus salva, cura e liberta”, e também em transmitir a idéia de que “ser crente não é ser quadrado”. Bons tempos. Quando a igreja passou a viver o Antigo Testamento, criar hierarquias e nomenclaturas, ano disso e daquilo, benção apostólica e afins, começou uma decadência sem fim. Processos e mais processos na Justiça por suspeita de desvio e lavagem de dinheiro, ações de despejo por não pagamento de aluguel, líderes saindo para estruturar suas próprias igrejas (Bola de Neve Church é um caso), Sônia e Estevam na cadeia por tentar fraudar o sistema tributário norte-americano, entre outros. Até os então denominados “Bispos-Primazes” da Banda Resgate viram que o navio afundaria e abandonaram o barco.

Mas não é pra falar da Renascer que me pus a escrever. Vivemos num país em que até pouco tempo atrás o número de pessoas analfabetas era altíssimo. Dados de 2003 do IBGE apontavam que 16 milhões de pessoas no Brasil eram incapazes de escrever um simples bilhete, e levando em conta os analfabetos funcionais, o número sobe para 33 milhões de pessoas. Dados de 2010 sobre o ensino superior apontam que existem 5,3 milhões de alunos matriculados em universidades. Tradução: temos uma população altamente incapaz intelectualmente, e fácil de manipular. Não à toa, nossos políticos fazem isso de forma muito eficiente.

Não é segredo a ninguém que o grosso dos evangélicos no Brasil é formado pelas classes C, D e E. Há sim integrantes das classes A e B, mas são absoluta minoria. A pulverização de denominações e as subdivisões dos evangélicos entre tradicionais, pentecostais, neo-pentecostais e apostólicos facilitou um fenômeno lamentável. O evangelho deixou de ser uma filosofia simples baseada no conceito da Graça e passou a ser uma teoria variável, com diversas interpretações possíveis. Levando em consideração que o movimento protestante já era uma maneira diferente de olhar para o evangelho, o resultado não poderia ser menos confuso.

Hoje, há igrejas e segmentações para todos os gostos e/ou necessidades.

A Igreja Universal (pioneira na Teologia da Prosperidade) teve vídeos sigilosos de treinamentos para pastores divulgados no site do jornal Folha de S. Paulo tempos atrás. Nesses vídeos, os “pastores” eram instruídos sobre técnicas de arrecadação de ofertas especiais, sobre como enfatizar que a contribuição era necessária para alcançar determinada benção, etc.

Igrejas (inúmeras, não vale citar nenhuma, para não ser injusto) que se especializaram no segmento “adoração” e que arrastam centenas, milhares e por que não, milhões em alguns eventos, focam na “adoração extravagante”, estimulando seus fieis a extravasarem suas emoções, criando assim, dependentes emocionais que nem se dão conta disso. Já dizia Karl Marx, nos idos do século XIX, que “a religião é o ópio do povo”. Nem líderes, nem seguidores se dão conta de que desempenham muito bem o papel descrito por Marx.

Quando uma instituição religiosa, autodenominada cristã, se põe a pregar uma variação do evangelho descrito na Bíblia, se põe a fazer um desserviço a quem a procure. Em nome de Deus, os tão criticados católicos já fizeram inúmeras barbáries no decorrer da história. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que embora diferentes, os danos causados pelas igrejas “evangélicas” é tão extenso quanto. Me refiro à quantidade de pessoas que tomaram contato com um evangelho distorcido ao longo dos anos e que, cada um à sua maneira, sofreram danos colaterais.

Paul Tournier, que era médico, em seu livro Culpa e Graça, faz uma citação intrigante a respeito do dilema da Graça: “É significativo o que um dos meus pacientes protestantes tenha dito: O protestantismo me parece com um enorme esforço para se ganhar a graça pela boa conduta, enquanto que o catolicismo distribui esta mesma graça a todo aquele que a procura com um padre’”. O curioso dessa bela obra de Tournier é que quando foi publicada no Brasil, teve trechos censurados, inclusive esse que citei acima. Nem me arrisco a perguntar o motivo…

 Não estou fazendo e nem quero fazer defesa do catolicismo, não tenho credenciais para isso. A questão que proponho reflexão é exatamente a sonegação da graça, voluntária ou não, por parte dos líderes evangélicos em geral. Condicionam diversas coisas, dentre elas a comunhão, à presença constante aos cultos, contribuições financeiras, adequação a hábitos impostos sem embasamento bíblico, etc.

A citação que fiz de Machiavel na introdução desta reflexão serve para ilustrar o tamanho da dificuldade em alcançar alguma mudança nesse cenário. Escolhi Machiavel por ser um pensador que teve boa parte de sua filosofia distorcida e pintada como perversa, e por sinal, a pintura perversa serve exatamente como figura icônica a essa igreja doente: praticam um evangelho em que “os fins – pessoais – justificam os meios”.

Em nosso contexto social, a igreja deveria cumprir uma função mais refinada do papel desempenhado pela Igreja Primitiva: assistir os necessitados, e ser fonte de inspiração e conhecimento para os incultos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” – João 8:32

O que pensar de líderes que segmentam suas igrejas afim de atingir certa parcela da população, e abandonam a simplicidade do evangelho? Como se calar perante o abuso intelectual a que submetem seus fieis, ou ainda a exploração que aliena e certas vezes destrói famílias, afetiva ou finaceiramente, quando não de ambas as formas? O que pensar de igrejas que como instituições permitem o “canibalismo” entre seus membros, fazendo surgir a cada esquina novas “portas”, sem estrutura, que terão à frente pessoas incapazes de gerir uma comunidade, ou de lidar com temas e questões delicadas? Por quê não criticar essa irresponsabilidade, que arrebanha milhares e perde outros tantos, de tempos em tempos, transformando o evangelho numa religião de ocasião?

Não. Não me calarei, não me intimidarei e não darei por encerrada minha tarefa de expor essas mazelas, desmascarar as conveniências de alguns, inconvenientes ao bem geral. Não sou o único, e sei que hoje já não são poucos os insurgentes contra essas instituições falidas que pregam uma distorção pobre dos belos ensinamentos de Cristo. E por quê faço isso? Por amor a Deus, ao próximo e por uma necessidade quase que fisiológica de cumprir Marcos 16:15, ordem expressa: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.

A tarefa é árdua, mas mudaremos esse quadro.

Essa matéria foi publicada na Revista Época. Ricardo Alexandre publicou em seu blog a matéria original, sem cortes. Confira abaixo:

Por Ricardo Alexandre

Abrindo mão das grandes estruturas e de olho na pós-modernidade, inspirados no cristianismo primitivo e conectados à internet, exigindo ética e criticando abertamente a corrupção neo-pentecostal, líderes e leigos querem recriar o protestantismo à brasileira

Irani Rosique é um cirurgião de 49 anos, dono de um dos principais hospitais de Ariquemis, cidade de 84 mil habitantes do interior de Rondônia. Numa terça-feira daquelas típicas noites quentes do outono rondoniense, o médico está no alpendre de uma confortável mas não luxuosa casa de uma amiga professora, no Setor 3, bairro de classe média da cidade, junto a outros velhos amigos, alguns vizinhos e parentes da anfitriã. São aproximadamente 15 pessoas e Irani prepara-se para falar. Por 15 minutos, conversa com os presentes sobre o que o Salmo primeiro (“bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”) dizia aos corações dos presentes. Depois, oraram pela última vez – como já haviam orado uns pelos outros e cantado por cerca de meia-hora antes da palavra do cirurgião – então partiram para o tradicional chá com bolachas regado à conversa animada e íntima.

Irani não é pastor, presbítero, bispo, muito menos “apóstolo”. É apenas um médico que há décadas reúne-se em pequenos grupos de oração, comunhão e estudos da Bíblia. Com o passar dos anos, esses grupos se organizaram num modelo conhecido como “células”, com o objetivo de apoiarem-se e multiplicarem-se. Hoje, são 262 espalhados pela cidade, congregando cerca de 2.500 pessoas, organizadas tanto quanto possível por 11 “supervisores”, Irani entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com a única característica comum de serem crentes mais experientes e de, preferencialmente, terem passado por algum dos vários cursos de treinamento cristão existentes por todo o Brasil.

Desde que converteu-se ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia no final da década de 1960, Irani jamais participou de uma igreja formalmente instituída. Apenas de pequenos grupos sem o menor apego à liturgia ou clero. Adulto, chegou mesmo a ter dificuldades em divulgar seus projetos e eventos entre os chamados “evangélicos históricos”. Entretanto, hoje o médico é uma referência entre líderes de todo o Brasil, de bispos da Igreja Anglicana a professores do tradicionalíssimo Instituto Haggai. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã vindos de igrejas que, há 20 anos, não lhe retornariam um telefonema. Irani Rosique pode ser considerado uma espécie de símbolo de um período flagrante de transição que ocorre hoje nas igrejas evangélicas brasileiras em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões, hierarquias e quaisquer outras ortodoxias estão sob profundo processo de revisão e autocrítica.

Em São Paulo, o pastor Ariovaldo Ramos, formado teólogo e filósofo dentro das estruturas da igreja batista, missionário do Serviço de Evangelização Para a América Latina, ex-secretário da Associação Evangélica Brasileira e hoje líder da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo, atesta que a inquietação rondoniense deixou há muito o estágio do experimento. “O jeito antigo de comunicar o evangelho deixou de falar conosco”, diz. “Muitos líderes estão repensando o diálogo e, especialmente, a práxis cristã. Os religiosos que nos antecederam detinham a verdade absoluta. Então não precisavam dialogar nem com a sociedade, nem com quem não pensasse 100% como eles.”

Estima-se que sejam cerca de 50 milhões os evangélicos no Brasil – um crescimento seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando a hegemonia passou das mãos das chamadas denominações históricas (igrejas centenárias de raízes na Reforma Protestante, como batistas, presbiterianas, luteranas e metodistas) para as igrejas pentecostais, especialmente a Assembléia de Deus. Desde a década de 1980, porém, com o surgimento das denominações neopentecostais como Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça e Renascer em Cristo, o número cresceu 700%. Os neopentecostais acrescentaram à doutrina pentecostal de manifestações sobrenaturais o apelo da chamada “teologia da prosperidade”, com ênfase no enriquecimento material. Entre alguns setores evangélicos mais otimistas, circula a estimativa de que até 2020 metade dos brasileiros deverá converter-se à fé evangélica. Dentro do próprio meio protestante, entretanto, há diversas vozes céticas e críticas desse modelo dominante que, segundo estes, moldou-se à sociedade brasileira de consumo em vez de influenciá-la como imaginavam sociólogos como Emílio Willems e Lalive D’Epinay. Essas vozes dissonantes, que ecoam em púlpitos, seminários, blogs, faculdades e pequenos grupos de todo o país questionam não apenas o apetite voraz dos neopentecostais por novos adeptos, mas, ao mesmo tempo, o que chamam de “ensimesmamento” das igrejas históricas. E propõem uma revisão geral de valores.

“Estamos, sem dúvida, numa mudança de paradigma, e as mudanças de paradigma são sempre complicadas, porque os que saem ainda não têm as respostas, e os que ficam estão apenas lutando desesperadoramente para manter o barco na superfície”, diz o pastor Ricardo Gondim, da igreja Assembléia de Deus Betesda, autor de, entre outros livros, Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas: A Graça de Deus e Nossas Frágeis Certezas. “O que temos hoje são mais inquietações do que soluções. Ainda somos filhos do velho paradigma e talvez nem sejamos nós a trazer as respostas, mas aqueles que nos sucederão. Uma coisa é certa: o movimento evangélico está visceralmente em colapso.”

Nos Estados Unidos, maior país evangélico do mundo e pátria da maior parte de seus desdobramentos mais controversos – tele-evangelismo, neopentecostalismo etc – a questão de reinvenção do modelo tradicional de igreja evangélica já mobiliza lideranças há algumas décadas. A igreja Willow Creek de Chicago, fundada nos anos 1970, trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja”. Em São Paulo, no início da década de 1990, o pastor Ed René Kivitz, recém-empossado na Igreja Batista da Água Branca adotou o lema para a sua própria comunidade, ao qual adicionou ser ainda “uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar.” Kivitz é atualmente um dos principais pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos mais aguerridos críticos da religiosidade institucionalizada. Em um evento para líderes, no final de 2008, advertiu algumas dezenas de colegas quanto qualquer perspectiva de mobilização em torno da “representatividade” política evangélica: “Eu não quero salvar a igreja evangélica brasileira”, disse na ocasião. “Essa igreja que está aí na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, não com a chamada igreja evangélica brasileira.”

Pós-modernidade – De uma forma ou de outra, com todas as diferenças denominacionais, teológicas e culturais, o que une a maior parte desses pensadores e líderes evangélicos é a busca pelo papel da religião cristã na chamada cultura pós-moderna. “As mudanças que estão acontecendo no meio evangélico hoje não são diferentes das mudanças culturais que a civilização ocidental está experimentando”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana do Limão, em São Paulo. Para ele, autor do livro A Piedade Pervertida: Um Manifesto Anti-fundamentalista em nome de uma teologia de Transformação , os efeitos negativos da sociedade moderna, como a urbanização incontrolável, a crise de diálogo com o mundo muçulmano e a crise ambiental, conduziram a um clima de descrédito com as instituições – quaisquer instituições – que se arvorassem inabaláveis, sejam bancos, escolas, sistemas políticos e igrejas. “Estão todos sob suspeita”, afirma. “Hoje, ninguém duvida que a espiritualidade é uma boa coisa, assim como educação é uma boa coisa, mas as instituições que as representam estão sob júdice.” Gouveia considera essa nova perspectiva uma “revolução cultural”, mas não se aventura a prever que novo modelo de fé cristã surgirá daí. “Alguns indícios nós temos. Uma certeza é de que a igreja não deve ser sectária, que deve estar envolvida com a sociedade – e a igreja da modernidade era orgulhosa de ser sectária. Outra certeza é de que a fé cristã não pode ser mais baseada na posse de uma verdade da qual eu tento te convencer com argumentação lógica e racional. Acreditamos que são os relacionamentos e as experiências de vida que podem levar as pessoas a experimentar a vida cristã, e não o convencimento de que eu cheguei a uma verdade que vai derrubar a sua mentira.”

Em parte, essa “revolução cultural” é um movimento contra o que esses pensadores chamam de “institucionalização” da igreja. Segundo eles, quase 500 anos depois das famosas “95 Teses” de Martinho Lutero, a igreja protestante – ao menos a sua faceta mais conhecida e numerosa – apresenta-se tão repleta de dogmas, tradicionalismos, carnalidades, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica medieval que Martinho Lutero tentou reformar. “A igreja evangélica tradicional se perdeu no linguajar ‘evangeliquês’, na igreja pela igreja, no moralismo, no formalismo, e deixou de oferecer respostas para quem vive no nosso tempo, na nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchoa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, cidade da Grande Recife. “Tornou-se muito difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com o mundo evangélico, por causa do excesso de formalismo e do vazio de conteúdo.”

Uchoa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina, com mais de 1500 membros. Apesar de pregar usando as tradicionais vestes sacerdotais, seu trabalho é reconhecido por toda cúpula anglicana como um dos mais dinâmicos e renovados do país. Ele, que ainda alimenta um blog na internet e trabalha em iniciativas solidárias sem vínculo com denominação alguma, é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante” e o trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnam em cafés, museus, praias ou pistas de skate. “O importante não é a forma”, afirma Uchoa. “O importante é encontrar a essência da fé cristã. Essa essência acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular as pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

Essa busca pela essência da espiritualidade cristã tem transformado diversos pontos até então tidos como característicos como dispensáveis – às vezes condenáveis. E, do ponto de vista dos mais ortodoxos, essas transformações conduzem ao risco do que chamam de “relativismo” dentro dos absolutos da fé cristã. “É claro que somos criticados como ‘relativistas’, mas penso que o nosso desafio é realmente aprender a contemporizar o que é relativo e o que é absoluto na fé cristã”, afirma Ariovaldo Ramos. “Sabemos, por exemplo, que a ética é um valor inegociável. A generosidade também. O amor também. Mas a estrutura eclesiológica, a religiosidade, são valores que muitas vezes se chocavam com a essência. Estamos abrindo mão deles”.

Em Campinas, funciona uma das experiências mais radicais de diálogo cristão com a sociedade pós-moderna. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem exatamente uma sede – seus freqüentadores reúnem-se em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e ofertas da liturgia de suas reuniões – os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo via depósito bancário, e esperar em casa um relatório detalhado dos gastos do mês. Seus “sermões” são chamados, mais apropriadamente, de palestras, e são ministrados duas vezes por domingo, com recursos multimídias e um palestrante sentado em um banquinho a frente de um MacBook. Como estímulo à mensagem bíblia, o freqüentador pode entrar em contato com uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda. Trocaram o uso do termo “igreja” por “comunidade”. Seu público é formado principalmente por gente com formação universitária entre os 25 e 40 anos.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai-mamãe-filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô Fora e A Jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Macumba para evangélicos – Outro ponto fundamental de confluência dessas novos evangélicos é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais, especialmente com as denominações expostas na televisão. “É lisonjeador quando somos chamados de ‘pensadores’ cristãos, como quem está problematizando a questão evangélica”, afirma Agreste. “Mas o verdadeiro problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência. É de ética e honestidade – ou, para usar um termo cristão, de santidade.”

O pastor presbiteriano entende como algo de grande importância que o tratamento dispensado aos neopentecostais tenha transcendido o campo das divergências teológicas ou de costumes. “Nos últimos tempos, essas divergências ganharam uma conotação mercadológica”, ele explica. “Não se trata mais de pensar de forma diferente sobre a essência da espiritualidade cristã. Hoje se trata de entender que há gente utilizando vocabulário, elementos de prática cristã para manipular as pessoas e ganhar dinheiro com isso. Essa tomada de posição tornou a crítica muito mais acirrada.”

Como efeito, há um movimento grande de crítica aberta ao segmento evangélico vindo das entranhas do próprio movimento evangélico, especialmente contra seus ramos ligados à teologia da prosperidade. A jornalista Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em Nome de Deus, sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores e líderes. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O Que Estão Fazendo com a Igreja: Ascenção e Queda do Movimento Evangélico Brasileiro, um desolador retrato de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto da personalidade e o esquerdismo político. Ricardo Bitun, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, dedicou-se a estudar o assunto e publicou a tese Igreja Mundial do Poder de Deus: Rupturas e continuidades no campo religioso neopentecostal. O presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez definiu as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus como descarrego, quebra de maldições, objetos benzidos como “macumba para evangélico”. “Não chega a ser uma novidade essas críticas internas”, afirma Renato Fleischner, gerente editorial da Editora Mundo Cristão, citando livros dos anos 1990 como Supercrentes e Evangélicos em Crise do teólogo Paulo Romeiro ou internacionais como Como Ser Cristão sem Ser Religioso de Fritz Ridenour e O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Menning. “É um discurso bastante antigo. O que parece que aconteceu recentemente é que a sociedade se fartou dos escândalos e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há muito tempo.”

Fleischner lembra que em 1993, ano de lançamento do livro Supercrentes, a editora foi muito criticada por líderes e por fiéis escandalizados com o texto que afrontava, nominalmente, alguns dos principais nomes da teologia da prosperidade e da confissão positiva como Valnice Milhomens (futura fundadora da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo), Edir Macedo, Estevam Hernandes etc. “A posição mais comum na época era não expor as pessoas, não julgar, tratar internamente”, diz o editor. “Mas hoje há uma necessidade muito maior de registrar que esses evangélicos que estão na mídia não representam e nem se parecem com a totalidade do povo evangélico brasileiro.”

O pastor Ed René Kivitz distingue a crítica interna dos evangélicos da cobertura que a mídia tradicional faz dos escândalos envolvendo os líderes evangélicos. “Já existe uma voz criticando essa igreja que está na mídia como um fenômeno social, cultural e religioso. Para fazer essa crítica não requer bagagem teórica ou histórica. Nem muita inteligência, basta ter um pouco de bom senso. Essa crítica o CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, afirma. “Eu faço uma crítica diferente, teórica, como pastor. É uma crítica visceral, passional, existencial, porque antes de ser um ‘profissional da religião’, eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”

Como efeito, diversos pontos comuns entre as diversas correntes evangélicas começaram rapidamente a ser questionados. A relação entre pastores e membros é cada vez mais horizontal, com abertura para diálogo e constante avaliação. As decisões estão cada vez mais nas mãos da própria comunidade, sem espaço para ingerências de uma “sé” ou de um “ungido de Deus”. Os grupos de reunião nas casas são o coração das novas igrejas, encerrando uma era de catedrais evangélicas imponentes e de “cultos-show” superproduzidos. Trabalhos, ministérios e eventos entre diferentes denominações tornam-se cada vez mais comuns. Músicas ligadas à chamada “teologia triunfalista” (arraigada em temas do Antigo Testamento como vitória, vingança, peleja, unção, guerra e maldições) passam a ser entendidas como próprias do judaísmo, e não do cristianismo. Até o vocabulário muda: termos como “culto” começam a ser substituídos por “celebração”, “encontro” ou “reunião” e até o desgastado termo “evangélico” começa a ser substituído pelo mais radical “cristão”.

“Os neopentecostais é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, diz o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos. Prefiro chama-los de seitas paraprotestantes.”

Meia-dúzia – O sociólogo Ricardo Mariano, um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico nacional e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil vê com naturalidade o embate entre neopentecostais e as lideranças críticas. “Desde que o neopentecostalismo ganhou força no Brasil que os pastores históricos partiram para a desqualificação”, diz. “Mas não há nenhum órgão que regule o que é ou não uma legítima igreja evangélica, logo ninguém tem autoridade falar em nome de todos os evangélicos”. Mariano acredita que uma das chaves para entender essa cisão é a formação cultural dos crentes. “Essas comunidades progressistas são direcionadas ao público classe média, letrado. É um público que colocou os pés numa universidade, lê jornais e revistas e tem capacidade muito maior de formar e sustentar opiniões próprias. Evidentemente, com quem pesquisa e questiona, não dá para existir essa história de ‘não pode assistir televisão porque a Bíblia não quer’. É um fenômeno do espalhamento da informação. Vivemos uma época em que o doente pesquisa na Internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor. Em uma época assim, o pastor não impõe nada, ele joga para a consciência do fiel.”

O diretor-geral da editora Mundo Cristão, Mark Carpenter, vê o crescimento do nível educacional e econômico do brasileiro como um fator determinante do novo perfil evangélico. “É muito difícil que alguém com formação universitária, com senso crítico, consiga se sentir confortável em uma igreja em que um pastor muitas vezes leu menos do que ele e ainda tenta mante-lo em um cabresto cultural.” Isso explica que as inquietações religiosas pós-modernas sejam mais claras em capitais mais avançadas econômica e culturalmente. “Eu falo para um auditório formado quase que totalmente por gente com formação universitária, em uma cidade como São Paulo”, diz Ed René Kivitz. “São pessoas que não querem dogmas, querem honestidade. As dúvidas deles são as minhas dúvidas. Minha postura com eles é a de que juntos talvez possamos encontrar algumas respostas satisfatórias às nossas inquietações. Talvez eu não tivesse essa mesma postura se estivesse servindo a alguma comunidade em um rincão do interior.”

Embora essa circunstancia de crescimento da classe média seja suficiente para a circulação de ideias e para o crescimento das próprias comunidades, Ricardo Mariano não vê termo de comparação entre a força atrativa dessas igrejas com a dos pentecostais e neo-pentecostais. “O destino desses líderes vai ser o de ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia-dúzia de pessoas”. O presbiteriano Ricardo Gouveia rebate dizendo que “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer que precise ocupar espaço no mercado”, ele diz. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou fazê-lo mais interessante ou vendável.”

Multimídia – Com o advento da internet, o trânsito de ideias tornou-se definitivamente incontrolável. Hoje, pastores, seminaristas, músicos, líderes e leigos mantêm sites, portais, comunidades e blogs em que trocam experiências, estudos em pdf e mensagens em mp3. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o “Contrato da Fé” (um “documento” “autenticado” pelos pastores prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” e “herdar o que é seu por direito”) grassou a rede angariando toda sorte de comentários. Uma cópia scaneada da sentença do juiz federal Fausto De Sancti culpando Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas foi amplamente distribuída no final de 2009, especialmente por conta das considerações do juiz, alegando “nítida contradição entre aquilo que fazem e dizem” e que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. Outro vídeo, com o pregador americano Moris Cerullo no programa do famoso assembleiano Silas Malafaia prometendo uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede.

“A internet forma comunidades, no sentido tecnológico mas no sentido teológico também”, diz o editor Renato Fleischner. “São pessoas em volta de ideias semelhantes, com ideais comuns, ainda que não pensando necessariamente da mesma forma. A circulação de palestras, sermões, pdfs, links e vídeos dificulta o aprisionamento do pensamento.” Um dos livros mais polêmicos da Mundo Cristão é A Bacia das Almas, reunindo os melhores posts originalmente publicados no blog homônimo do ilustrador Paulo Brabo com o provocativo subtítulo de “Confissões de um ex-dependente de igreja”. Outros sites, como Pavablog, Veshame Gospel, Irmãos.com.Br, Púlpito Cristão, Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica.
De um grupo de blogueiros, por exemplo, surgiu a ideia da “Marcha pela ética”, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus de São Paulo (evento organizado pelo casal Hernandes, da Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “o $how tem que parar”, “voltemos ao evangelho puro e simples” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.

Uma característica comum a todos esses blogs é que assuntos como teologia, política, sociologia, ética, família, direitos humanos, televisão, cinema e MPB se misturam com a mesma naturalidade. Esse trânsito entre o “secular” e o “santo” é uma das características mais marcantes dessa geração. “Os líderes tradicionais diante de toda confusão emergente, normalmente optam pelo ensimesmamento, pelo ostracismo”, diz Ricardo Agreste. “Nós ousamos entrar em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento da cultura, assistir a outros filmes, ler outros autores, ouvir pessoas e refletir sobre tudo isso. Porque acreditamos que a espiritualidade cristã tem a missão de resgatar a pessoa como ser relacional, que vive em sociedade, e faze-la interagir e transformar a sociedade.”

O raciocínio anti-sectário se espalhou para a música, por exemplo. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem como “música feita por cristãos” e não mais “gospel”, rompendo os limites entre “mercado” evangélico e pop. Em São Paulo, o capelão Valter Revara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra diversos cursos, seminários e eventos de conscientização ambiental em igrejas e, em mão oposta, ambiciona levar os valores cristãos de conservação em escolas e centros comunitários. “No fundo é a mesma proposta de materializar o amor ao próximo no dia-a-dia, de ser ‘sal da terra’ que marcou boa parte das sociedades protestantes”, afirma Ravara. “Nós não jogamos papel no chão, nós temos consciência social, porque a função da igreja é ‘contaminar’ quem está a nossa volta, ser ‘sal da terra’, como Jesus mandou.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia Verde, com laminação biodegradável, verniz à base de água, papel de reflorestamento e encarte com devocionais sobre ecologia e sustentabilidade. Agora prepara a primeira Bíblia de estudo direcionada para questões ambientais.

O anglicano Robinson Cavalcanti afirma que um dos aspectos que mais o seduziu no protestantismo, durante sua conversão na década de 1950, era justamente sua luta por uma sociedade utópica. “Desde a abolição da escravatura, apoio à proclamação da República, luta pelas escolas mistas, luta pela reforma constituinte”. “A alienação dos evangélicos brasileiros é coisa muito mais recente, desde quando a suposta hegemonia passou para os pentecostais e neo-pentecostais e começou essa história de ‘crente não se mete em política’.” A candidatura de Marina Silva à presidência da república, que angariou simpatia de blogueiros e twitteiros, mas não o apoio de sua própria igreja (a Assembléia de Deus, que declarou apoio a José Serra) é visto como um marco da nova inserção política desses novos evangélicos. “Políticos cristãos devem tentar criar um modelo de pensamento político ou de contribuição social que expresse o Reino de Deus dentro da política”, afirma Carlos Bezerra Jr, líder do PSDB na câmera dos vereadores de São Paulo. “É o oposto do modelo tradicional, das candidaturas oficiais que sustentam impérios eclesiásticos, e das ‘bancadas evangélicas’ no Congresso, de gente que está na política apenas para defender sua própria denominação ou conseguir facilidades para ela.”

Nesse ponto, os novos evangélicos – especialmente aqueles ligados ao movimento conhecido como “missão integral” – se aproximam da práxis desenhada há mais de 30 anos pelo catolicismo como Teologia da Libertação. “Foram eles que nos ensinaram a fazer teologia não a partir de conceitos, mas a partir da realidade do nosso tempo”, diz Gondim, cuja tese de mestrado em Ciências da Religião foi justamente Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica. Os líderes simpatizantes dessa corrente têm se empenhado em ações sociais diversas que vão desde parecerias com ONGs até trabalhos junto a viciados no centro da cidade, passando por campanhas mobilizando os fiéis. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para ser vivido na vida cotidiana, e não dentro das quatro paredes de uma igreja. Deus é adorado por meio do nosso trabalho, da nossa cidadania e pela ética com que vivemos nossa vida.”

Ao citar os reformadores, Gouveia talvez dê a dica das reais dimensões do movimento empreendido por esses homens, mulheres, blogueiros, pastores, teólogos. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu no século 16 com a reforma protestante, só que, desta vez, direcionada para as entranhas da igreja protestante. Cansados das indulgências, da corrupção e do descrédito crescente, pessoas de dentro da própria estrutura levantaram-se para propor uma nova forma de enxergarem o mundo e serem enxergados por ele. “Marx e Freud nos convenceram de que se alguém tem fé, então só pode ser um alienado, um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências de segurança”, diz o pastor Ed René Kivitz. “Pois hoje nós queremos dizer que o cristianismo tem espaço na sociedade, e um espaço de inserir-se e contribuir como uma das forças de construção de uma alternativa para o modelo de civilização da era moderna. Vivemos um terceiro momento, depois de uma ideia de religião como um gueto, ensimesmada, na ostra, e depois de uma religião como questão de foro íntimo, sincrética. Nossa defesa é do cristianismo como um projeto coletivo, uma das forças para construir uma sociedade que todo mundo espera, não apenas os cristãos.”

Fonte: Causa Própria

Esse texto foi extraído do dotGospel blog, e traduz a preocupação que temos com a mutação teológica que acontece no meio cristão-protestante brasileiro. A distorção da mensagem que Jesus trouxe sobre prosperidade é alarmante. A postura da autora é interessantíssima, firme e direta, porém postá-lo aqui não significa exatamente que concorde cegamente com o texto. Enfim, vou deixar que o texto fale por si só… Boa leitura!

Por Laila Flower
Recentemente eu vi um vídeo do Pr. John Piper que falava sobre a prosperidade, ou melhor, falava CONTRA prosperidade. Ele destacou algo muito importante que eu quero frisar é a necessidade de SOFRERMOS. Leia de novo: SOFRERMOS.

É muito comum vermos por aí igrejas com um papinho furado de que “os filhos do Rei merecem o melhor”. Vi pregações de um pastor famoso chamando de hipócritas aqueles que dizem não ligar para dinheiro, prosperidade e, uma vez que se preocupa, tem de buscar de Deus.

Minha resposta para estas igrejas, pastores, pastoras ou quem quer mais buscar a prosperidade é simples: “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?”. Para falar a verdade, a resposta não é minha, é de Jesus. Ele disse também, um pouco antes (Mt 16.24-26) que é necessário que as pessoas neguem-se a si mesmo e peguem sua própria cruz.

Se eu não estou enganada, não é muito fácil negar a si mesmo e ao mesmo tempo buscar a sua prosperidade. Um exemplo concreto é o do jovem rico, em Mateus 19.16 e versículos seguintes. Jesus não olhou o jovem rico e louvou a sua fé (afinal, ele era RICO!), ao contrário, mandou ele vender tudo – o dinheiro, a prosperidade, era exatamente aquilo que o afastava de Deus. E isso é visível, uma vez que ele preferiu não seguir a vender tudo.

E não podemos esquecer que o convite de Jesus não é “vou te seguir e te fazer prosperar”, é “DEIXE TUDO E SIGA-ME”! Em Mateus 4, a partir do versículo 18, vemos Jesus chamando os primeiros discípulos para segui-lo.

Nesse ponto o leitor já deve estar imaginando que eu sou daquele tipo que encara dinheiro do diabo, que quem tem mais do que o suficiente por dia é mundano….hm….não. Eu também trabalho, ganho dinheiro, batalho para ganhar um pouco mais e poder adquirir coisas novas. Mas esse não é meu foco. E também por isso não é o foco do meu relacionamento pessoal com Deus.

Dinheiro faz parte da vida das pessoas, mas não pode ser a vida das pessoas.  Ganhar pouco e ficar contente parece loucura para muitos. Talvez seja, mas certamente não é uma maneira de ficar obcecado pelo dinheiro a ponto de ver a vida passar pela janela e ficar trancado trabalhando para acumular.

E acho que o tal de acumular é que nos faz entender qual é o meio termo da coisa. Aliás, creio que o meio termo é o objetivo em tudo da vida cristã, exceto no amor à Deus (e suas consequências!). Por que se estamos tentando alcançar o máximo, nossa dedicação será maior e ofuscará a atenção para Deus – esse sim o objetivo máximo da nossa vida.

Poderemos buscar coisas que certamente não são pecaminosas (como dinheiro para pagar as contas no fim do mês, por exemplo), mas se a encararmos de forma a tornar um objetivo (dinheiro para ser rico – e o termo “rico” sendo variado não nos dá limite), isso se tornará um pecado porque estará tirando a posição de Deus nas nossas vidas.

Mateus 6.33 dá a receita da vida: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas”. Quando Jesus disse “essas”, ele quis apontar roupas e alimento, tema dos versículos anteriores – inclusive que ele diz que se atormentar por causa de comida e bebida é coisa que faziam os pagãos. E pensar que este mesmo versículo é desvirtuado para embasar teologia da prosperidade…

Mas, afinal de contas, como devemos viver?

Devemos viver contentes. Um dia conversando com o Paulo Reis ele disse algo muito importante: Deus nos delega a quantidade de dinheiro necessária e que Ele sabe que poderemos administrar para Ele. Tudo é do Senhor, nós somos apenas gerentes de uma pequena parte para nos suprir.

Se buscamos além do que Deus quer nos dar (e muitas vezes exigimos!), pecamos por buscarmos dinheiro sem estar junto de Deus.

E não se engane, Deus pode querer que você passe necessidade – os planos Dele são perfeitos e Ele ainda assim cuidará de você. Paulo passou por isso e entendeu essa regra. Leia Filipenses 4.11 e veja que ele afirma que aprendeu a conviver com a fartura e passando necessidades.

Concluindo, olhe para esses pastores que buscam primeiro seu próprio reino na terra e diga: xô, prosperidade!

*Shaiala “Laila Flower” de Araújo é cristã, dotblogueira, dotCaster, e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Vive em Porto Alegre e aceitou colaborar com o blog.

 Encontrei esse texto na web, e embora não conheça o autor e também não concorde em 100%  com suas palavras, é um texto extremamente rico e inteligente. Retrata a infeliz realidade da nossa igreja protestante brasileira. Boa leitura!

Respeitável público!! Venha ver a menor cantora do mundo!! Não deixe de assitir ao show do pregador anão!! Não perca o homem que não tem ouvidos e ouve!! Venha ouvir a menininha de 3 anos que já é pregadora!! Venha ver o homem que tem 8 balas de revolver no corpo!! Assista ao homem que prega plantando bananeira!!

Que a igreja dita evangélica no país já tinha assumido a sua postura de pão e circo, eu já sabia e isso era evidente há algum tempo, mas que ela, a igreja, havia assumido o papel de circo real é algo que tem me deixado impressionado.

A cada dia que passa, nosso cardápio de atrações aumenta, na busca incessante de público para os nossos cultos-espetáculos. A Palavra deixou de ser pregada faz tempo, o louvor se tornou a repetição de frases-chavões durante longos minutos catársicos de uma coletividade doentia e reprimida, Deus passou de receptor do culto para um simples instrumento de manipulação de massa e cobrador dos impostos eclesiásticos que o pecador tem que pagar para alcançar a benção.

Voltando ao começo, é triste ver a igreja brasileira caminhando para esse circo de horrores. A indústria dos testemunhos e dos seres esquisitos para pregarem a “palavra” parece não ter fim. Ninguém quer mais ouvir um pregador sério, que diga aquilo que realmente Deus fala em sua Palavra. O povo quer espetáculo!

Se o pregador não tem um “atrativo” a mais, não serve. Tem que ser anão, ter menos de 5 anos, já ter sido quase morto em confrontos com a polícia, ex-isso, ex-aquilo, não ter língua e falar, e assim cresce a massa levedada pelo fermento dos espetáculos circenses de alcunha “gospel”.

Já não satisfaz o culto verdadeiro, em espírito e em verdade, onde o louvor é comprometido com a verdade e onde a pregação nada mais é do que a exposição sincera e coerente da Palavra de Deus. Palavra ? O que é isso ? Nós queremos é o show!! Pagamos para isso, para vermos nossas igrejas lotadas, custe o que custar.

Muitos já me falaram que os “artistas” não são tão culpados assim, afinal são as igrejas que os “contratam”, não?

Sinceramente, ambos estão negociando com o evangelho. Há inegavelmente uma indústria de testemunhos e esquisitices evangélicas dominando o mercado.

No caso das crianças creio que os maiores culpados são os pais que submetem seus filhos a essa lavagem cerebral para tornarem-se desde pequenas verdadeiros “papagaios espirituais” repetindo sermões, chavões e impressionando o povo medíocre que gosta dessas coisas. O preço da fama às vezes é a perda da inocência e da infância. São pais querendo tornar filhos crianças em adultos-pregadores-sérios. Enquanto Jesus manda que os adultos façam-se como crianças…

No caso dos adultos, aí já é safadeza mesmo! É gente que quer ganhar dinheiro em cima dos crentes que não pensam, mas adoram ver as “coisas do espírito”. São aproveitadores da boa-fé do povo que vive pela fé. Se tivessem compromisso real com Deus não aceitariam os holofotes sobre suas anomalias para “exaltarem” a Deus. Isso é conversa pra boi dormir. Digo sem medo… e gostaria de ver uma dessas atrações circenses do nosso meio “gospel” negar isso olhando nos meus olhos.

Quanto às igrejas que contratam, bem… desses eu já espero tudo mesmo… pois o que interessa a esses é a igreja cheia e o cofre abarrotado… o nome da igreja conhecido e o nome de Jesus diminuído… sepulcros caiados…cheios de espetáculos estarrecedores para esconderem suas anomalias reais…

Que Deus tenha misericórdia desses que negociam a fé e nos obrigam a ficarmos como palhaços nos seus enormes picadeiros eclesiásticos.

Com tristeza no coração,

José Barbosa Junior