Acredito que escrever ou falar às pessoas com a intenção de proporcioná-las reflexões, sobre qualquer tema que seja, deve partir de um sentimento de convicção, revestido de muita responsabilidade, pois conscientizar não deve ser leviano a ponto de equiparar-se a manipular. São duas ações diametralmente opostas, em princípios e finalidades. Antoine de Saint-Exupéry diria que “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”…

Muitos pensamentos publicados aqui, anteriormente, passam por revisão: a essência e o motivo que os gerou continuam existindo, e hoje, olho para eles com outros óculos, talvez mais severos, talvez mais tolerantes. O que importa é que tenho vivido uma fé renovada e alérgica ao desespero, ao brado mimado da teologia da prosperidade neopentecostal, ao estar com Deus por aquilo que Ele pode fazer.

No texto de Ricardo Gondim que reproduzo abaixo, vi muito conteúdo histórico que gostaria de compartilhar, pois para muitos a verdade irrefutável de hoje, nada mais é que uma construção ideológica feita por pensadores astutos de ontem. Muitas doutrinas pregadas hoje, não passam de fundamentalismo simplista (e com isso, assemelham-se ao legalismo tão demonizado nas próprias igrejas), que reduz o complexo evangelho de Cristo a uma cartilha de regras.

Há também um parágrafo, em especial, que muito me identifiquei, por testemunhar o que tenho vivido: o Deus que se revela onipotente, amoroso e que não cabe na caixinha doutrinária, simplista e irreponsável das igrejas.

Mergulhe nas palavras de Ricardo Gondim:

Desde suas raízes, o movimento evangélico se fortaleceu no calor apologético. No final do século 19, a Alta Crítica junto ao revisionismo das escolas alemãs forçou alguns segmentos mais conservadores e herdeiros do pietismo e puritanismo europeu a buscarem solidificar posições. O fundamentalismo buscou simplesmente resumir o que considerava os pontos inegociáveis da fé cristã. Para ele, a inerrância da Bíblia, o nascimento virginal, a expiação mediante a fé na cruz e a volta triunfal de Cristo para arrebatar a igreja constituíam-se os alicerces da fé.
Contudo, o fundamentalismo ficou tão hermético e sectário que antes da década de 50 alguns como Carl Henry, fundador da revista “Christianity Today”, e o evangelista Billy Graham perceberam que ele carecia de oxigênio. Pensadores mais ecumênicos e menos intolerantes se uniram para solidificar o Movimento Evangélico, conhecido nos Estados Unidos como “Evangelical Movement” (até então, os “evangelicals” não aceitavam os pentecostais, só recebidos mais tarde, depois que cresceram numericamente e já não podiam ser tratados como seita).
Nos primeiros anos, os evangélicos eram considerados um segmento “diferente” dos antigos fundamentalistas. Segmento que dialogava com intelectuais e não descartava a cultura como mundana. Assim, o fundamentalismo recrudesceu. Isolado, perdeu representatividade, enquanto os “evangelicais” se tornaram notórios, famosos e ricos.
O Movimento Evangélico se consolidou no Ocidente como uma forte expressão do protestantismo. Empreendeu grandes projetos missionários, definiu os cânones literários e teológicos na formação de lideranças. Expandiu sua influência pela América Latina; construiu seminários e deu o perfil do que identificou como protestantismo.
Porém, mesmo nos Estados Unidos, os “evangelicals” nunca abandonaram as raízes fundamentalistas. Na década de 70, consumiram os livros de Francis Schaeffer, procurando dar um ar mais acadêmico ao literalismo hermenêutico, e desde o nascedouro sempre fizeram da teologia sistemática manual obrigatório nos seminários.
O Movimento Evangélico desejava fazer teologia nas mesmas categorias que a academia secular, com critérios científicos de compreensão de Deus. Com hermenêutica, exegese e estudo das línguas originais, pretendia chegar à verdade objetiva do texto sagrado.
Os tempos mudaram; paradigmas envelheceram. O mundo percebeu que as lentes racionais da modernidade eram insuficientes para se chegar à “verdade última”. Sem notar, as escolas pós-modernas de compreensão da verdade concordaram com Paulo, quando afirmou que “a letra mata, o espírito vivifica”. Hoje, lê-se para chegar aos afetos, não à exatidão de uma verdade “verdadeira”. O que o Espírito quer falar nas entrelinhas? Talvez seja uma pergunta mais pertinente. Não se busca entender, decodificar ou autenticar uma verdade, mas percebê-la com o coração.
A cosmovisão pós-moderna não se interessa em discorrer sobre temas como justiça e verdade, mas em como encarná-los. A questão posta não é mais a repetição de dogmas tidos como verdadeiros, mas a integridade com que se vive. Credibilidade e testemunho são expressões em voga. O desafio é adensar o que se pensa com a vida.
Acontece que o movimento evangélico continua com o paradigma da modernidade. E a modernidade permanece com o “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo), já ultrapassado.
Nenhum texto é maior que a realidade. Não é preciso cogitar, mas ser. Revertamos em nós mesmos as palavras iniciais do Evangelho de João: “O Verbo se fez carne”. A contrapartida humana consiste em nos fazermos em verbo; tornar nosso discurso a nossa vida e fazer de nossa vida o nosso discurso. Ghandi afirmou: “Devemos ser no mundo a mudança que queremos ver no mundo”.
Conseguimos pouco, mas urge transformar-nos no que proclamamos e escrevemos. O evangelicalismo nos apresentou a teologia como uma disciplina técnica, que nos ajuda a “entender” com exatidão quem Deus é e como ele se relaciona com os seres humanos. Porém, nenhuma técnica ilumina. O que ilumina é o sentir, o perceber, o vivenciar. Precisamos escalar uma montanha interior, atingir os patamares sensitivos, que vêm do Espírito Santo. Ele é o transmissor da vida que desejamos; ele reveste de virtude. Ele gera testemunhas.
Hans Burki gostava de repetir a frase “we need to learn the unlearnable” (Precisamos aprender o “inaprendível”). Santo Agostinho afirmava que Deus tem filhos que a igreja não tem. Hoje, depois que muito já observei, acredito poder dizer: Deus tem se revelado a muitos filhos sem precisar de nossas doutrinas. Talvez, o descrédito que o Movimento Evangélico experimenta seja revertido por um novo Pentecoste. Assim espero!
“Soli Deo Gloria”.

Natal é, sinceramente, uma época confusa pra mim. Toda a propaganda consumista caucada na imagem de um vovô boa gente, paralela à mensagem de que “Cristo nasceu” me deixa zonzo. Não é ranzinzice, mas não gosto do Natal. Gosto das festas, dos bons amigos por perto, da comilança, enfim, gosto da comunhão.

Nunca consegui engolir o encaixe feito de uma data que não era comemorada numa festa de origem pagã. É, o Natal tem origem pagã, e o fato mais importante da vida de Cristo foi sua morte, que nos deu vida, e apesar da bela cena que foi seu nascimento, os cristãos das antigas não comemoravam seu nascimento como se faz hoje: de mentirinha, para justificar o consumismo.

Porém, me deparei com um belíssimo texto (e muito coerente) do teólogo José Barbosa Junior, membro da Primeira Igreja Batista de Teresópolis (RJ). Compartilho com vocês, pois sei que acrescentará a vocês, tanto quanto me acrescentou. O nascimento de Jesus sob o ponto de vista mais cristão que se pode ter a respeito do evento: quebra de paradigmas.

Lindo, recomendo que acompanhem até o fim.

As músicas de Natal (e eu gosto muito delas!) sempre nos pintam um quadro majestoso do nascimento de Jesus. Dá para ver os anjos enchendo de luz o céu, uma estrela mais brilhante que o normal, parece que o clima era todo propício para O acontecimento, quase numa perspectiva hollywoodiana dos fatos. Muita luz, muita festa, gente importante, afinal, era ninguém menos do que o próprio Deus que ali encarnava… não poderia haver quadro mais rico e belo!

Porém, ao me deparar com as narrativas com que o texto sagrado nos brinda, um sorriso maroto me vem e a expressão sai com uma naturalidade assustadora: “Deus é um brincalhão!” Toda a lógica de um “mega evento” é subvertida pelas “personagens” desse acontecimento que toda a cristandade comemora: o Natal!

Em primeiro lugar, um anjo aparece a um velho sacerdote. Engraçado isso: o primeiro a saber é alguém que em breve “perderá seu posto”. O anúncio da vinda do messias é o fim do sacerdócio como até então se conhecia. Santa ironia! O sacerdote emudece, sua esposa engravida, o filho saltitante desde o ventre será aquele que anunciará o fim da velha ordem. Sua mensagem será simples, mas demolidora: O Reino de Deus chegou! O velho sacerdote já não será mais a ponte entre Deus e o povo. Sua alegria é saber do fim do seu ofício!

Entra em cena uma jovem, provavelmente uma adolescente. Seu nome: Maria! Como cantaria bem mais tarde o poeta, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta… quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida!” No quadro muitas vezes visto em presépios, pinturas e imagens, está uma adolescente grávida, ainda não casada… e com um “noivo” prestes a deixá-la por causa dessa gravidez. Uma adolescente disposta a enfrentar tudo por causa de uma “revelação”. Mas não deixa de ser, para quem vê, uma simples adolescente grávida sem estar casada. Nada bom!

O homem que pensava em deixar a adolescente também não  era um sujeito importante. Morava em Nazaré, pequena aldeia da Galiléia, lugar de gente pobre, que saiu de sua terra para tentar a vida no pequeno povoado. Mesmo sendo descendente do grande Rei Davi, era na terra pobre e de onde nada se esperava que morava e trabalhava este rapaz. E ainda pior, por conta de um decreto do então imperador, ainda teve que viver momentos de “retirante”… com sua noiva adolescente, grávida, à tiracolo. Um pobre carpinteiro, trabalhador braçal, morador do “fim do mundo”. Eu não o convidaria para fazer parte da grande história da humanidade!

O lugar. Não é uma personagem, mas o lugar onde a cena se dá há de ser mencionado: um estábulo! Lugar de animais, fétido, rústico, pobre também. A história que até agora já envolveu um sacerdote prestes a perder seu ofício, uma adolescente grávida e um retirante pobre tem como pano de fundo uma estrebaria… como imaginar algo bom de um “quadro” desses?

Mas nada há de tão ruim que não possa piorar: o menino nasceu! Ali, envolto em faixas, foi colocado sobre uma manjedoura (isso mesmo, um cocho para se dar comida aos animais). E os anjos (personagens divinos da história) diziam que o tal menino era o cumprimento de toda a profecia que permeava o povo: o Messias havia chegado! Deus fazendo morada entre os homens. O verbo se fazia gente, disse um outro poeta.

E, como se não bastassem todas essas pessoas pobres, toda essa cena insólita, a quem mais foi anunciado o “acontecimento”? A uns pobres pastores, que, de madrugada, guardavam seus rebanhos. Os pastores eram gente da “base da pirâmide” social. Gente desqualificada para ser testemunha de um grande acontecimento, muito mais na presença de um “Rei”. Provavelmente analfabetos, tinham como companheiras as ovelhas e alguns outros animais. Não deviam entender nada de profecias, de religião, de rituais. Gente mais “do povo” impossível! E lá foram eles, convidados pelos anjos para testemunharem A cena!

Algum tempo mais tarde, outros visitantes apareceram. Tudo indica que o cenário já era outro, mas as pessoas eram as mesmas: a adolescente, agora mãe; o jovem carpinteiro da cidade do interior e o menino, que crescia e mal sabia que já era motivo de inveja e planos de assassinato. Esses visitantes tinham algo de muito estranho em toda essa história: não eram da mesma religião! Não esperavam o  “messias”! Nem sequer sabe-se se adoravam ao “Deus verdadeiro”. Eram magos! Estudavam as estrelas… sim… astrólogos! Do oriente! Há algo de muito errado nestes visitantes! Como assim? Homens que não conhecem “a verdade” podem adorar aquele que é A verdade? Será que A verdade revelada em uma pessoa era maior que a verdade até então revelada em meras palavras? De qualquer forma, mais uma vez há uma subversão no quadro: homens de outros povos, de outros “deuses”, de outras “práticas” estão ali, adorando o menino, dando-lhe presentes. E voltam para as suas terras, ainda magos, ainda estudiosos das estrelas…

Um sacerdote em processo de “des-sacerdotização”; um bebê que se agita desde a barriga da mãe; uma adolescente grávida; um pobre carpinteiro do “fim do mundo”; um lugar fétido e pobre; uma criança indefesa; a ralé da sociedade; e, por fim, magos astrólogos do oriente. Se quisesse ainda poderíamos colocar um casal de velhos: ele, que só esperava ver o menino para morrer, e ela, viúva de 84 anos, que nada mais fazia na vida a não ser ficar no templo…

Sinceramente, continuo sorrindo diante do absurdo que é o “quadro” do nascimento de Jesus. Pura subversão de um Deus que pouco se importa com a “apresentação” e ama gente que provavelmente eu e você não convidaríamos para tal espetáculo! O Reinado de Deus chegou, porque seu Rei desembarcou em e por meio de tanta gente desqualificada e despreparada. O Reino é subversivo, o quadro é subversivo, o Evangelho é a subversão!

Natal é Deus quebrando paradigmas, dogmas, leis, ritos, fronteiras, barreiras. Natal é Deus na sua mais pura e bela subversão… seu amor!

Boas Festas!

Faz um tempo que não venho aqui usurpar a boa vontade de quem gasta preciosos minutos lendo minhas divagações e sonhos. Porém, escrevendo para o Gospel+ esbarro em situações que, para não classificá-las como trágicas, considero cômicas. Desde os confetes que grandes líderes evangélicos trocam entre si, até a pastora que há dez anos não faz sexo e quer montar a “carrocinha” gospel. Tudo bizarrice, Deus me perdoe.

Noto que gente bem intencionada evita esses holofotes, e não me lembro de ter escrito nada dessa categoria sobre pessoas como Ed René Kivitz, Ariovaldo Ramos, Ricardo Gondim (genial e incompreendido, e admito, às vezes inconsequente no que diz). Por outro lado, Malafaia, Macedo, Santiago, Feliciano vivem às turras entre si para manterem-se presentes no imaginário popular evangélico. Triste, triste.

Mas, o que sempre me preocupou foram as consequências dessa sandice protagonizada por pessoas que lideram outras, e que não medem a onda que provocam. Hoje, nem tão velho e maduro quanto possível, mas com uma certeza tão nítida quanto minha fé em Cristo, me considero um cristão à moda antiga. Tão antiga que talvez, nessas terras, nunca tenha sido moda.

Uma das características que a igreja evangélica vem talhando é a intolerância. Eu não tinha me dado conta até agora do tamanho dessa intolerância, pois acreditava que meus irmãos eram intolerantes apenas com os que estão no miolo gospel e se recusam a fazer parte, ou ser mais do mesmo. Achava que a intolerância era só comigo, em outras palavras. Mas, enfim, a comunidade evangélica tornou-se um “lugar” onde quanto menos contestação, melhor; quanto mais militância inconteste, pior para quem resolver discordar.

A premiada jornalista Eliane Brum publicou essa semana, no site da Revista Época, um artigo digno de ser lido com imparcialidade, e degustado calmamente. São críticas com bom tom de humor, mas alto teor de verdades que a geração neopentecostal não enxerga.

Enfim, amigos. Recomendo que leiam, que lembrem-se das palavras de Jesus e das ideias apregoadas por ele, e que, por um instante, esqueçam das palavras que famosos líderes evangélicos neopentecostais (quantos “adjetivos” não?) gritam como palavras de ordem. É uma visão externa, e teoricamente, isenta, afinal, Eliane Brum é ateia e não ganha nada, particularmente, gastando tempo e espaço para falar sobre o assunto.

Boa leitura!

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

– Você é evangélico? – ela perguntou.
– Sou! – ele respondeu, animado.
– De que igreja?
– Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
– Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
– Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
– Legal.
– De que religião você é?
– Eu não tenho religião. Sou ateia.
– Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
– Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
– Por que as boas ações não salvam.
– Não?
– Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
– Mas eu não quero ser salva.
– Deus me livre!
– Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é espírita.
– Não, já disse a você. Sou ateia.
– É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

– Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
– Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

-Eliane Brum, jornalista

A partir de Segunda-Feira, 19/09, passarei a escrever para o site Gospel+, maior portal sobre o universo gospel do mundo, com mais de 170.000 pageviews diários.

A proposta chegou em um momento importante, e lá, não expressarei opinião pessoal, mas seguirei uma pauta pré-estabelecida pela empresa. Para os que não sabem, sou redator publicitário, e lá, serei um quase jornalista. Quase por não ser formado em jornalismo, e porque essa não será minha fonte principal de sustento. Continuo publicitário!

Assumo esse desafio com olhar profissional, montando textos com o único propósito de informar. Minhas opiniões continuarão sendo expressas através desse blog, e eventualmente, em algum artigo a ser divulgado em veículos que façam um convite.

O estilo de escrita é outro ponto a ser observado: tenho o meu estilo pessoal, mas no Gospel+ seguirei a linha editorial do portal, assim como todos os profissionais nas grandes empresas de comunicação. O público evangélico brasileiro é formado essencialmente por pessoas das classes C e D, e isso influi diretamente na construção e argumentação dos textos.

Meu muito obrigado a cada um que acompanha meu blog. Suas observações, críticas e elogios foram muito importantes para que eu me aperfeçoasse como homem, cristão e escritor. Esse blog não acaba aqui, pelo contrário, se torna ainda mais importante, quase um refúgio. Um grande abraço a todos!

Não há empresa mais difícil de conduzir, mais incerta quanto ao êxito e mais perigosa, do que a de introduzir novas instituições. Aquele que nisso se empenha tem por inimigos todos quantos lucravam com as instituições antigas e só encontra tíbios defensores naqueles aos quais as novas aproveitariam” –Machiavel

Dia desses, em uma troca de idéias com um amigo, discutíamos a validade ou não de exercer críticas à igreja evangélica brasileira, pela sua ineficiência em cumprir o “Ide” e sua especialização em manter entre as quatro paredes um rebanho desnutrido espiritualmente.

Ouvia atentamente seus argumentos de que ao criticar líderes que hoje estão “famosos” por polêmicas, há uma injustiça, afinal já levaram o evangelho a milhares de pessoas, e por serem também pessoas, são imperfeitos. Há o caso mais emblemático do casal Hernandes, líder da Igreja Renascer, citado por ele como exemplo de injustiça. Lembrei de quando conheci a Renascer, nos anos 90, época em que se preocupavam em pregar que “Jesus salva, cura e liberta”, e também em transmitir a idéia de que “ser crente não é ser quadrado”. Bons tempos. Quando a igreja passou a viver o Antigo Testamento, criar hierarquias e nomenclaturas, ano disso e daquilo, benção apostólica e afins, começou uma decadência sem fim. Processos e mais processos na Justiça por suspeita de desvio e lavagem de dinheiro, ações de despejo por não pagamento de aluguel, líderes saindo para estruturar suas próprias igrejas (Bola de Neve Church é um caso), Sônia e Estevam na cadeia por tentar fraudar o sistema tributário norte-americano, entre outros. Até os então denominados “Bispos-Primazes” da Banda Resgate viram que o navio afundaria e abandonaram o barco.

Mas não é pra falar da Renascer que me pus a escrever. Vivemos num país em que até pouco tempo atrás o número de pessoas analfabetas era altíssimo. Dados de 2003 do IBGE apontavam que 16 milhões de pessoas no Brasil eram incapazes de escrever um simples bilhete, e levando em conta os analfabetos funcionais, o número sobe para 33 milhões de pessoas. Dados de 2010 sobre o ensino superior apontam que existem 5,3 milhões de alunos matriculados em universidades. Tradução: temos uma população altamente incapaz intelectualmente, e fácil de manipular. Não à toa, nossos políticos fazem isso de forma muito eficiente.

Não é segredo a ninguém que o grosso dos evangélicos no Brasil é formado pelas classes C, D e E. Há sim integrantes das classes A e B, mas são absoluta minoria. A pulverização de denominações e as subdivisões dos evangélicos entre tradicionais, pentecostais, neo-pentecostais e apostólicos facilitou um fenômeno lamentável. O evangelho deixou de ser uma filosofia simples baseada no conceito da Graça e passou a ser uma teoria variável, com diversas interpretações possíveis. Levando em consideração que o movimento protestante já era uma maneira diferente de olhar para o evangelho, o resultado não poderia ser menos confuso.

Hoje, há igrejas e segmentações para todos os gostos e/ou necessidades.

A Igreja Universal (pioneira na Teologia da Prosperidade) teve vídeos sigilosos de treinamentos para pastores divulgados no site do jornal Folha de S. Paulo tempos atrás. Nesses vídeos, os “pastores” eram instruídos sobre técnicas de arrecadação de ofertas especiais, sobre como enfatizar que a contribuição era necessária para alcançar determinada benção, etc.

Igrejas (inúmeras, não vale citar nenhuma, para não ser injusto) que se especializaram no segmento “adoração” e que arrastam centenas, milhares e por que não, milhões em alguns eventos, focam na “adoração extravagante”, estimulando seus fieis a extravasarem suas emoções, criando assim, dependentes emocionais que nem se dão conta disso. Já dizia Karl Marx, nos idos do século XIX, que “a religião é o ópio do povo”. Nem líderes, nem seguidores se dão conta de que desempenham muito bem o papel descrito por Marx.

Quando uma instituição religiosa, autodenominada cristã, se põe a pregar uma variação do evangelho descrito na Bíblia, se põe a fazer um desserviço a quem a procure. Em nome de Deus, os tão criticados católicos já fizeram inúmeras barbáries no decorrer da história. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que embora diferentes, os danos causados pelas igrejas “evangélicas” é tão extenso quanto. Me refiro à quantidade de pessoas que tomaram contato com um evangelho distorcido ao longo dos anos e que, cada um à sua maneira, sofreram danos colaterais.

Paul Tournier, que era médico, em seu livro Culpa e Graça, faz uma citação intrigante a respeito do dilema da Graça: “É significativo o que um dos meus pacientes protestantes tenha dito: O protestantismo me parece com um enorme esforço para se ganhar a graça pela boa conduta, enquanto que o catolicismo distribui esta mesma graça a todo aquele que a procura com um padre’”. O curioso dessa bela obra de Tournier é que quando foi publicada no Brasil, teve trechos censurados, inclusive esse que citei acima. Nem me arrisco a perguntar o motivo…

 Não estou fazendo e nem quero fazer defesa do catolicismo, não tenho credenciais para isso. A questão que proponho reflexão é exatamente a sonegação da graça, voluntária ou não, por parte dos líderes evangélicos em geral. Condicionam diversas coisas, dentre elas a comunhão, à presença constante aos cultos, contribuições financeiras, adequação a hábitos impostos sem embasamento bíblico, etc.

A citação que fiz de Machiavel na introdução desta reflexão serve para ilustrar o tamanho da dificuldade em alcançar alguma mudança nesse cenário. Escolhi Machiavel por ser um pensador que teve boa parte de sua filosofia distorcida e pintada como perversa, e por sinal, a pintura perversa serve exatamente como figura icônica a essa igreja doente: praticam um evangelho em que “os fins – pessoais – justificam os meios”.

Em nosso contexto social, a igreja deveria cumprir uma função mais refinada do papel desempenhado pela Igreja Primitiva: assistir os necessitados, e ser fonte de inspiração e conhecimento para os incultos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” – João 8:32

O que pensar de líderes que segmentam suas igrejas afim de atingir certa parcela da população, e abandonam a simplicidade do evangelho? Como se calar perante o abuso intelectual a que submetem seus fieis, ou ainda a exploração que aliena e certas vezes destrói famílias, afetiva ou finaceiramente, quando não de ambas as formas? O que pensar de igrejas que como instituições permitem o “canibalismo” entre seus membros, fazendo surgir a cada esquina novas “portas”, sem estrutura, que terão à frente pessoas incapazes de gerir uma comunidade, ou de lidar com temas e questões delicadas? Por quê não criticar essa irresponsabilidade, que arrebanha milhares e perde outros tantos, de tempos em tempos, transformando o evangelho numa religião de ocasião?

Não. Não me calarei, não me intimidarei e não darei por encerrada minha tarefa de expor essas mazelas, desmascarar as conveniências de alguns, inconvenientes ao bem geral. Não sou o único, e sei que hoje já não são poucos os insurgentes contra essas instituições falidas que pregam uma distorção pobre dos belos ensinamentos de Cristo. E por quê faço isso? Por amor a Deus, ao próximo e por uma necessidade quase que fisiológica de cumprir Marcos 16:15, ordem expressa: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.

A tarefa é árdua, mas mudaremos esse quadro.

Charge do Quino, cartunista argentino criador da Mafalda, sobre os valores do nosso tempo!

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#dica da Taci Mineira

Desventuras e ilusões

Publicado: 09/08/2011 em Reflexões

E quando não há solução aparente, quando o desânimo é mais forte, quando o lado sombrio da alma toma o controle?

Quando vejo no espelho a criatura, não o filho? Quando o único controle à disposição é o descontrole absoluto e inconsequente da arrogância? Quando sinto que meus pés caminham numa estrada espaçosa e movimentada na direção contrária ao lar?

Olho ao redor e vejo um exército de esqueletos fertilizando a areia. O horizonte do deserto tremula ameaças. Vi 10.000 caídos no Oriente e agora tropeço em outros tantos… Não fui atingido!

Sede! Sede que ignorei e tentei enganar. Sede de Vida! Sede de lustrar a opacidade e brilhar. Sede de agir, agir tão alto que o ruído abafe minha voz, sede de calar a injustiça com amor, sede incondicional. Cansado, vejo a placa da hospedaria: alívio! Uma fonte jorra esperança e reconciliação, flui dela um rio pulsante. Um mergulho e sinto como se tivesse trocado o pesado fardo da estrada por um roupão de banho. Num cantinho vejo um espelho e não resisto, mas a confusão só aumenta… O reflexo que se mostra não é o meu, mas o de um homem com quem esbarrei diversas vezes. Ainda assim, alívio! A expressão serena me acalma e já não sinto mais aquela sede.

Recebi um convite à reflexão do Maurício Soares, diretor da Sony Music para o mercado Gospel, e qual não foi minha surpresa ao ler seu desabafo.

Me lembro das circunstâncias em que me encontrei pela primeira vez com Maurício, quando ainda era diretor da Graça Music, no lançamento do cd de Dani Grace, na Igreja Batista de Vila Mariana, em São Paulo. Convido vocês, leitores, a degustar as palavras de alguém que conhece profundamente o meio.

Por Maurício Soares

Que país é esse?

”Que lugar é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?” (Juan Arias, jornalista, citado por Helena Beatriz Pacitti).

Na última newsletter do Pavablog que recebo periodicamente, entre tantas e tantas manchetes de destaque, esta acima em especial me chamou atenção justamente por tratar de um assunto que venho pensando bastante nos últimos dias. Inclusive recentemente num raríssimo momento de conversa e brainstorming com o outro (bastante ausente por sinal!) editor, o nobre Carlos André, comentei sobre escrever algo meio diferente dos temas habituais como mercado gospel, indústria fonográfica e afins. Comentei com ele sobre como eu sentia falta da igreja evangélica brasileira assumir algumas ‘bandeiras’ ao longo de sua existência e como isso se tornava cada vez mais latente em contraponto ao nosso crescimento como segmento na sociedade.

 

E ao ler a newsletter e coincidentemente me deparar com esta indagação me senti impelido a enfrentar o risco de escrever esse post a seguir. Na verdade, como já imagino qual teor darei ao texto, quero de antemão incluir-me nessa análise no mais autêntico mea culpa.

 

Nos tempos áureos da ditadura militar em nosso país, o Rio de Janeiro e o Brasil assistiram à “Marcha dos 100 Mil” convocada por entidades civis, sindicatos e principalmente a outrora combativa e hoje absolutamente chapa-branca UNE – União Nacional dos Estudantes. Naquele momento a ‘bandeira’ daqueles jovens baseava-se na luta pela liberdade, direitos, democracia, entre outros temas. A igreja evangélica brasileira à época não representava uma parcela grande na sociedade de nosso país como hoje em dia, mas já possuía alguma relevância, mas sua participação neste momento tão importante de nossa história foi pífia.

Na verdade, a igreja evangélica brasileira durante o regime militar manteve-se entre a total inércia e o disfarçado colaboracionismo com os círculos do poder. Sobre esse momento de nossa história há alguns textos, livros e estudos (pouquíssimos é verdade!) publicados e vale a pena pesquisar sobre o assunto na web e nas bibliotecas.

Entre as lideranças evangélicas que se opuseram à ditadura, destaco o pastor presbiteriano James Wright (1927-1999). Nascido em Curitiba, filho de missionários norte-americanos, militante pelos direitos humanos que estudou teologia e pós-graduação na Universidade de Princeton (EUA), em 1950.

Em 1973, seu irmão Paulo Stuart Wright desaparece e é assassinado pelos órgãos de repressão do Regime Militar. Faz publicar e distribui, pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço, 1,8 milhão de exemplares da edição ecumênica da Declaração Universal dos Direitos Humanos e escreve artigos para o exterior, denunciando as violações dos direitos humanos no Brasil.

A partir de 1979, a convite de dom Paulo Evaristo Arns, trabalha pela causa dos direitos humanos na Arquidiocese de São Paulo e coordena o projeto Brasil: Tortura Nunca Mais, que resulta na publicação de um livro, um inventário sobre a tortura no Brasil durante os 21 anos de ditadura.

James Wright não contou em nenhum momento com o suporte da igreja evangélica brasileira, mesmo depois do fim da ditadura militar e chegou ao fim da vida contando apenas com o apoio da igreja católica e outras entidades para sua causa.

Passada a fase de chumbo da ditadura, o Brasil se envolveu na luta pela “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita” que visava repatriar ou libertar das prisões os brasileiros que lutaram contra o regime militar. E mais uma vez, a igreja evangélica brasileira manteve-se à margem das manifestações.

Pouco tempo depois o país mergulhou na campanha pela democratização plena com as Diretas Já. Em mega comícios pelo país, a sociedade civil se uniu para clamar pela possibilidade do voto direto à presidência e outros cargos públicos. E seguindo o script de tempos anteriores, mais uma vez, a igreja evangélica brasileira manteve uma postura de distanciamento.

O país foi seguindo sua história com inúmeros momentos de menor ou maior participação da sociedade. E independente do tema em questão, a igreja evangélica brasileira manteve sua histórica neutralidade.

Vieram os cara-pintadas e o impeachment do presidente Collor. O Brasil pela primeira vez na história republicana viu um presidente ser deposto. Comoção nas ruas e uma aura de novos tempos pairou sobre o país. Depois vieram ainda os escândalos dos Anões do Orçamento, da Saúde e tantos outros problemas nacionais.

A igreja evangélica brasileira ao longo da década de 90 viveu uma explosão, um verdadeiro milagre do crescimento e hoje representa uma expressiva parcela de nossa sociedade. Estima-se que em 9 anos, mais de 50% da população brasileira fará parte de uma igreja evangélica totalizando mais de 100 milhões de pessoas.

E o que vemos de mudança de mentalidade e postura na igreja evangélica brasileira acompanhado por este crescimento? Minha resposta é simples e direta. Sinceramente, não vejo nada de tão relevante e impactante!

Não quero e não posso me aventurar a fazer uma análise sociológica do fenômeno evangélico e a sua participação na sociedade brasileira (olha aí um bom tema para estudantes em fase de monografia!), mas como um simples observador desse universo e como um cidadão comum, vejo que a igreja evangélica de nosso país é carente de assumir ‘bandeiras’. Sempre se mantendo a parte das grandes polêmicas e discussões da sociedade.

Mas talvez você astuto leitor do Observatório Cristão me questione: mas e o movimento contra a PL122? Isso não seria uma mudança na postura da igreja evangélica já que houve uma boa movimentação das lideranças? Ou mesmo na última campanha presidencial as lideranças evangélicas não tiveram um papel relevante?

Eu diria que estes dois exemplos ou “movimentos” podem ser sinais de que algo realmente mudou nos últimos tempos na postura da igreja evangélica em nosso país. A única dúvida que eu tenho é sobre os reais motivos de alguns líderes nestas ações, mas de qualquer forma, já podemos aplaudir esse rompimento com a tradição do distanciamento das grandes causas.

Do ponto de vista ético cristão contrapor-se à aprovação de uma lei como essa é absolutamente aceitável. Esta é uma ‘bandeira’ positiva assim como a não-liberação da cartilha pró-gay-sexo-livre proposta pelo Ministério da Educação pouco tempo atrás.

Só que entendo que esta deva ser uma ‘bandeira’ da igreja como um todo e não de poucos e midiáticos líderes. Confesso que não vi até hoje nenhuma ação em conjunto da igreja brasileira em prol da Família ou mesmo dos conceitos ético morais com base na Bíblia. Quando eu penso em IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA, me vem à mente uma organização que realmente represente a maioria deste segmento da sociedade e não poucas e parcas denominações.

Sei que estou me estendendo demais neste texto, mas permita-me apenas seguir por mais algumas linhas porque este é um assunto muito empolgante!

Por exemplo, hoje há um mal que está assolando o país e que se chama CRACK. Famílias estão sendo devastadas pela força do vício das drogas. A sociedade brasileira está perdendo de goleada nessa luta contra o tráfico de drogas e a violência. E o que efetivamente a igreja evangélica brasileira está fazendo contra esse cataclisma? Mais uma vez respondo que a igreja, repetindo a novela de tempos atrás, mantém-se alheia às demandas da sociedade.

Apenas para ilustrar essa minha visão, no centro de São Paulo encontra-se a Cracolândia reunindo milhares de pessoas que consomem drogas em plena luz do dia. Pois bem, a Cracolândia está localizada há menos de 300 metros de distância da sede de uma mega denominação neopentecostal. E sabe que tipo de trabalho essa igreja realiza nessa região junto aos viciados em droga? Simplesmente nada! Nenhum trabalho, ou seja, mantém-se absolutamente distante dos problemas e segue pregando um evangelho de prosperidade e triunfalismo!

E contra a corrupção que grassa a nossa sociedade nos mais diferentes escalões, segmentos e rincões do país? Também neste caso não vemos a igreja fazendo absolutamente coisa alguma, mantendo-se distante de qualquer discussão.

Não quero, como frisei já no início deste texto, apontar dedos para qualquer pessoa que seja a não ser para mim primeiro. Creio que como ‘sal’ e ‘luz’ para nossa sociedade eu deva me envolver em algum projeto cidadão em minha cidade. Já tive excelentes experiências recentes como na época das chuvas na Região Serrana do Rio e hoje sinto que devo voltar a buscar minha nova ‘bandeira’. Mas quero incentivar a que você, leitor, assíduo ou não, do Observatório Cristão, para que se sinta impelido, motivado e mesmo incomodado a mudar de postura e envolver-se com alguma ‘bandeira’ em prol de uma sociedade melhor e quem sabe, com esse nosso exemplo, possamos apresentar a vida com Jesus Cristo como algo melhor e mais inteligente.

 

Maurício Soares é jornalista, blogueiro, profissional de marketing e idealista por uma igreja que faça a diferença na sociedade.

Escrevo, todos os dias, sem obrigações com terceiros, apenas com meu espírito… Vezes publico, vezes não. Os impublicáveis são pensamentos genuínos, mas a sensatez me censura.

Escrevo, expresso o que a alma grita mas o templo abafa. Escrevo, sem esperar leitores ou admiradores, mas coleciono satisfações. Os que leem, às vezes não concordam, e eu, nem questão faço. O prazer é meu!

Parabéns aos que leem! Hoje é dia do escritor, aquela pessoa diversas vezes sem rosto que nutre as viagens, reflexões e alegrias que você sente!